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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Entrevista :: Carlos Brunno


por: Rafael Almeida

Mais uma entrevista muito bacana de fazer! Explico: esse cara aí é uma das figuras mais importantes pra história de nosso Sarau Feira Moderna. E qual não foi a surpresa (e a alegria) deste que vos escreve, ao saber que um antigo projeto foi, em parte, responsável/incentivador do sarau promovido por nosso entrevistado (no qual já me apresentei, inclusive!)? Aliás, o underground tem desses coisas. Quase nunca se tem a real noção do quanto as pessoas com as quais cruzamos nos influenciam, ou são influenciadas por nós ou por algo que fazemos. Por exemplo, duvido muito que o Sr.Carlos Brunno tenha ideia do quanto seus projetos na escola onde leciona são importantes na vida de seus alunos (e pra todos nós que dedicamos um pouquinho de nossa vida, que seja, à arte).. Enfim, segue o papo com nosso poetamigo Carlos Brunno!


FMZ: Pra começar, fale um pouco de seu último livro, “O Nada Temperado Com Orégano”! Você já está na estrada há um bom tempo divulgando ele, como tem sido a repercussão?

Carlos Brunno: A recepção do livro tem sido boa, mas as vendas andam mais ou menos nesse contexto de crise (ele tem vendido menos que os dois anteriores “Foda-se! E outras palavras poéticas”, de 2014, e “Bebendo Beatles e Silêncios”, de 2013, porém já percebi que não é por uma questão de rejeição e sim de falta de dinheiro dos leitores mesmo – o mais recente é mais caro, foi um projeto mais ambicioso, mas, em breve, só que mais lentamente que os anteriores, ele paga o seu custo e parto pra outro).


FMZ: Entrando num universo do qual entendo muito pouco: o mundo editorial. Você já lançou diversos livros. Todos de forma independente? Como funciona essa relação entre autor e editora e, como faz para manter sua obra sempre sendo atualizada, lançando novos livros com regularidade?

Carlos Brunno: Todos os meus livros foram feitos de forma independente (mesmo os com editora, quem pagou o custo fui eu, logo é independente também; curto mais assim, pois a obra fica com uma cara mais do autor e, bem, se o mercado editorial não se interessa, foda-se, vamos no método ‘Ramones” – 1, 2, 3 e vamos fazer nossa arte custe o que custar). O mercado editorial no Brasil é complicado – o público leitor é pequeno, a maioria das editoras, como qualquer empresa, quer faturar com obras pasteurizadas de autoajuda, de autores já consagrados, etc, poucas dão voz a novos autores (quando dão, cobram um valor, tipo um seguro, pois as editoras não querem nem ousam cometer qualquer risco com autores ainda não reconhecidos; pra livros de poemas então nem se fala: as editoras, em sua maioria, execram tais obras por não serem ‘rentáveis’). Agora como faço para manter sua obra sempre sendo atualizada, lançando novos livros com certa regularidade: os primeiros busquei patrocínios mais um capital inicial meu, depois é pé na estrada, vender nem que seja de porta em porta até garantir que a equação débito/crédito esteja favorável para a publicação de uma nova edição ou uma nova obra; até hoje não obtive lucro, mas também não sofri prejuízo, tanto que ‘sonho com os pés no chão’: outro livro só sai quando o anterior já se pagou (por isso, por favor, amigos leitores, encomendem o “O Nada Temperado Com Orégano” pra que eu possa lançar algo novo rs).


FMZ: Seus livros tem versão digital? Como vê o formato e-book? Acha válido?

Carlos Brunno: Bem, meus livros ainda não têm formato digital, um pouco por preguiça, falta de oportunidade e tempo rs. Planejo ainda neste ano, pra comemorar o aniversário de 20 anos de meus primeiros livros “Fim do fim do mundo” (junho de 1997) e “Promessas desfeitas” (agosto de 1997), como ambos estão esgotados, lançá-los em versão digital para download gratuito. O formato e-book é de fácil acesso e cada vez mais válido, até porque, como aparelhos eletrônicos como celulares passaram a se tornar ‘amigos íntimos’ das pessoas e devido à correria do dia a dia, o livro em versão digital é mais dinâmico e pode conquistar um número de leitores maior para o escritor. Resumindo: considero o formato e-book super-válido, apoio e pretendo apoiar ainda mais, mas tenho muito apreço ainda pelo livro impresso; o mais-que-fodástico Ziraldo sempre dizia que a leitura tem algo de sexual – é preciso ficar íntimo, tocar, folhear, sentir – e essa visão dele para o formato impresso permanece comigo; sou um colecionador/leitor voraz de livros impressos, mas também não dispenso obras em pdf, etc, por mais louco que seja nosso tempo, há pelo menos uma horinha pra cada leitura (falei que ia resumir e não resumi nada rs).


FMZ: Voltando um pouco no tempo: como a poesia entrou na sua vida?

Carlos Brunno: A culpa foi das estrelas da constelação pública escolar rs. Sinceramente, apesar de ser leitor voraz desde pequeno, meus interesses iniciais eram desenhos, pinturas. Já tinha escrito algo no ensino fundamental, mas nada marcante, nada que eu me lembre e/ou valorize; até curtia ler um ‘poeminha’ ou outro, mas preferia livros de contos, de aventura, de mitologia, de ficção científica e gibis, principalmente gibis (era viciado em HQs; hoje pego anestesias líricas mais pesadas sem largar os vícios anteriores rs). Só no primeiro ano do ensino médio, no Colégio Estadual Theodorico Fonseca, em Valença/RJ, lá pelos anos 1994, a professora de Português Ieda, através de suas aulas (que incluíam suas leituras entusiasmadas para poemas clássicos como os sonetos de Camões, as quais eu adolescente ficava tentando descobrir que p... de significado místico e emocional tinha naquilo que fazia minha professora suspirar e se sensibilizar tanto), conseguiu despertar meu interesse pela poesia. Ela me incentivou a escrever; até me inscrevi com o poema “Não cantamos mais rock’n roll” no Concurso Intercolegial daquele ano (atenção, governantes de Valença, precisamos resgatar a tradição do Concurso Intercolegial de Artes no município; muito artista fodástico começou num evento desses!). O poema era todo rimadinho - tem uma versão dele em meu quarto livro “O último adeus (ou o primeiro pra sempre)”, de 2004 -, com as figuras de linguagem que a professora Ieda me ensinara (bastante anáfora, uma ou outra metáfora), tinha a mensagem meio desesperançada de que a geração adolescente se afogava em bebidas e gritos calados; no dia da apresentação, fui declamar de macacão rasgado, ‘um nerd querendo causar’ rs, e, bem, não classifiquei pra final, mas dei meu recado. Porém aquele Concurso Intercolegial marcou meu aprofundamento na poesia, pois um colega meu, o André Diniz, tinha escrito um poema muito mais fodástico que o meu e também não classificou – ficou em segundo um poema meia boca de um playboy com sobrenome conhecido na cidade (cidade pequena é assim, né?) em homenagem aos esportistas Ayrton Senna e Dener, que haviam falecido há pouco; fiquei p... da vida pelo poema do André não ter nem ido pra final, banquei o anjo vingador e disse pra mim mesmo: vou estudar poesia pra que a minha arte fique tão foda que eles vão ter que me engolir em concursos. Estudei por minha conta poesia da Grécia Antiga aos estilos mais contemporâneos, vendo o lado bom e ruim de cada estilo, mergulhei num relacionamento duradouro com a poesia (engraçado que comecei a me aprofundar por raiva e teimosia e, aos poucos, fui me apaixonando). Um tempo depois, aproximadamente um ano depois, ganhei Menção Honrosa num Concurso Nacional de Poesias da Biblioteca Euclides da Cunha, no Rio de Janeiro/RJ (a professora de Português Selma quem me indicou e me estimulou a concorrer). O tema era “Miséria e Fome: qual é a solução?” e concorri e fui premiado com o poema “Intervalo de Refeição”. Daí, sigo esse caminho louco e lírico e continuo, apesar dos momentos tortuosos, sigo em frente.


FMZ: Você é professor, e toca projetos muito legais com seus alunos, alguns premiados, inclusive. No mundo de hoje, como fazer pra despertar o interesse da garotada pra poesia, literatura, enfim?

Carlos Brunno: A resposta desta pergunta está indiretamente (ou diretamente?) ligada à anterior: o que faço é estimular a leitura, mostrar-me leitor também, assim como as minhas professoras de Português fizeram comigo. É mostrar que no texto não há só um punhado de palavras colocadas umas com as outras; há sentimento, lirismo, há muita arte ali e precisamos entrar naquele mundo estranho, torná-lo nosso, ler o outro até o outro ser parte de nós, sermos nós e o outro também, É cada vez mais difícil, no mundo atual, voltado para a falsa interação – a interação ensimesmada diante de uma tela de computador ou tablet ou celular convivendo com egos distanciados, todos socializando seus umbigos -, despertar esse interesse (um poeta disse uma vez que não há mais paredes com ouvidos, e sim ‘ouvidos com paredes’; o lance é o professor teimar, não deixar de lado o dever de mostrar a importância da leitura, estimular e mostrar o poder do leitor realmente interativo-inteiro (aquele que não apenas lê, mas questiona e faz releituras das obras que lê), lembrar do uso de outras ferramentas artísticas (mostrar grandes adaptações cinematográficas de obras literárias, apresentar/carregar livros sempre consigo que demonstrem de forma ainda mais concreta os lados mais fascinantes da leitura e releitura). Outro ponto é apresentar pro aluno-escritor sempre o porquê da escrita, a marca autoral, o eternizar-se (quando se constrói uma obra de arte sua você marca sua existência no tempo, se imortaliza) e para quem ele escreve (elogiar, acompanhar com críticas construtivas a trajetória de escrita do aluno, ver seus avanços e, se possível, estimulá-lo a sempre mostrar sua arte, seja enviando seus escritos a concursos literários que estimulem novos autores, seja formando um Clube do Livro escolar, seja organizando saraus escolares e na comunidade [observação: todos os exemplos que passo não são meramente ilustrativos – na escola onde leciono, organizamos saraus, temos o Clube do Livro, grupo teatral escolar, etc]).


FMZ: E o Sarau Solidões Coletivas, como surgiu a ideia de fazer?

Carlos Brunno: Bem, digamos que essa ideia estava em gestação há quase 20 anos rs Desde que lancei meu primeiro livro Fim do fim do mundo”, no (agora extinto) Casarão da Artes de Valença/RJ, em junho de 1997, por estímulo da Secretária Municipal de Cultura da época, a mais-que-fodástica Ana Vaz, a minha poesia ficou associada com outras manifestações artísticas – no caso daquele lançamento, a Secretária me apresentou o Grupo Teatral Arte-Ofício, dirigido pelo Allabah (não sei se o nome dele é escrito assim, me desculpe) e pelo Carlos Henrique Cassiano e eles interpretaram uma série de poemas de meu primeiro livro num espaço privilegiado por quadros e esculturas de artistas plásticos da região. Ali, percebi que a união de diversas manifestações artísticas no mesmo evento gerava resultados líricos fodásticos. Nos lançamentos seguintes de livros, passei a convidar músicos, bandas, o próprio Arte-Ofício (sempre, devo muito a eles pela colaboração lírica), artistas plásticos. No lançamento do meu quinto livro “Eu e Outras províncias” de 2008, a poetamiga e jornalista Katia Berkowicz me falou uma coisa que ficou na minha cabeça por muito tempo, ela disse que eu não podia ficar muito tempo sem lançar livros, pois a cidade precisava daquele movimento artístico, que o pessoal ficava aguardando o novo livro e, consequentemente, o novo evento. Desde 1997, já rodava por diversas cidades com meus livros, mas intensifiquei esses passeios líricos, e passei a participar ainda mais de mais eventos na minha cidade, tentando formar grupos, mas ainda de forma muito esporádica, até que, em 2011, a convite do artistativistamigo Giovanni Nogueira, participei com alguns artistamigos do evento “Arte Valença” com meu livro “Diários de Solidão” (2010) e realizamos um sarau que batizei de “Diários de Solidões Coletivas”, em homenagem ao nome do meu sexto livro. O nome ‘aconteceu’ naquele momento, mas, como houve apenas aquela apresentação e uma outra em Rio das Flores/RJ, o grupo ficou meio que adormecido. Retomamos o nome e o grupo em um evento no início de janeiro de 2012, em Cambota, região rural de Valença/RJ, numa espécie de preparação pra nossa apresentação no Narcose Rock Clube #2 – Edição Especial Praia do Rock 10 anos, no Bar, Restaurante e Pizzaria do Portuga, na Praia da Ponta do Francês, em Itaipuaçu, Maricá/RJ, em 20 de janeiro de 2012, evento para o qual fomos convidados por você, “tio” Rafael Almeida (ou seja, você é um dos padrinhos/estimuladores do sarau). Mas, mesmo assim, após as duas apresentações, a ideia adormeceu mais uma vez, pra ressuscitar no dia 21 de abril de 2012, por estímulo do retorno do Jornal Valença em Questão (a equipe do jornal queria uma estratégia diferente para o lançamento de cada edição, então nos convidou pra fazermos o sarau e nós topamos). A partir daí, o Sarau Solidões Coletivas se consolidou (tanto que sempre comemoramos o seu aniversário no dia 21 de abril, apesar dos eventos anteriores) e resiste até hoje, mesmo que se equilibrando louca e liricamente nos altos e baixos dos tempos.


FMZ: O evento já tem um bom tempo de atividades. E, imagino, que assim como no meio musical independente, seja bem difícil de manter um projeto assim rolando, não?

Carlos Brunno: E bota difícil nisso rs. Por ser uma proposta de arte coletiva e independente, o Sarau Solidões Coletivas resiste mais por teimosia e força de vontade dos envolvidos; tem momentos de intensa euforia, tem suas fases apáticas que parece que vai estagnar, às vezes tá todo mundo bem, outras vezes, surgem sementes de desunião, ora somos benquistos, ora boicotados, algumas vezes ignorados ou rejeitados, noutras tantas estimulados a continuar ou a retornar; como diz o mestre-poetamigo Gilson Gabriel, “o sarau tá sempre ressuscitando”. Somos um movimento de contracultura, que rima com loucura, doçura ou tortura dependendo do momento, temos nossos altos e baixos, mas jamais finalizados, marchamos liricamente gloriosos mesmo nas derrotas rs, mas há de se destacar: o sarau traz aquela sensação consoladora de resistência vitoriosa, mesmo nos dias mais tenebrosos, afinal, é um projeto coletivo contracultural que flerta com o underground e perdura há anos sem rabo preso com políticos, sobrevive essencialmente pelo desejo de mostrar arte coletiva e livre das amarras tradicionais que alguns membros da sociedade de cidades pequenas insistem em manter.


FMZ: Tenho feito essa pra todos os artistas com quem converso... Sobre o momento político pelo qual nosso país passa: onde a classe artística fica no meio disso tudo? E mais, como tem visto a galera, músicos, poetas e por aí vai, com relação a tudo que está acontecendo? Há, no seu entender (ou deve haver), posicionamento? Enfim... suas opiniões, por favor..rsrs!

Carlos Brunno: Cara, como artista, sempre fui meio ‘apolítico com tendências de esquerda’, por mais paradoxal que isso seja, mais propenso à anarquia, por minhas raízes líricas underground, mas atualmente vivemos uma espécie de ‘ditadura legal ultradireitista’ e, como dizia Chico Buarque, o artista deve estar onde o povo está, e os direitos e interesses populares estão mais à esquerda, por mais que tentem manipular para o sentido contrário. Digo que a classe artística precisa se posicionar mais à esquerda; apoiar essa nova ordem ultradireitista brasileira seria como praticar uma antiarte. Vejo nos círculos sociais e virtuais com os quais interajo, os artistamigos muito divididos e lembro e repito: considero que devemos nos posicionar mais à esquerda devido ao contexto, mas opondo-se às posições radicais, ou seja, independente de que direcionamento político você tome, que seja sem ultras e sem Ustras, por favor!


FMZ: Planos para o futuro: tem livro novo a caminho, o sarau continua rolando, o que vem pela frente?

Carlos Brunno: Tenho sempre milhões de livros e ideias a caminho rs, mas, como eu disse anteriormente, primeiro preciso divulgar mais “O Nada Temperado Com Orégano” pra depois pensar nos próximos (mas garanto que tenho o esboço de, pelo menos, uns 4 livros novos, mas sem previsão alguma pra serem lançados). O Sarau Solidões Coletivas continua – em março, realizamos nosso eterno ‘retorno’ em um evento próprio, estimulado pelo convite da Rose Almeida, do Restaurante Variedade & Sabor, e ainda participamos do I Encontro Holístico de Valença/RJ no Espaço Ganesha -; agora planejamos onde e como faremos o evento de aniversário oficial do Sarau (21 de abril) e seguiremos assim, com eventos mais constantes, menos esporádicos.


FMZ: Bom, é isso. Muitíssimo obrigado pelo papo! Recado final?

Carlos Brunno: Recado final de poeta é sempre um poema, rs, e, como nesse ano comemoro 20 anos do meu primeiro livro “Fim do fim do Mundo”, deixo um poema que faz parte desta minha primeira obra poética:

Quando

Quando criaste espinhos
Eu criei uma rosa
Quando criaste o desvio
Eu criei minha casa
Quando criaste a distância
Eu criei o atalho
Quando criaste a dúvida
Eu criei minha paz
E quando construíres o fim
Eu já terei construído o meu recomeço.

(poema do livro “Fim do fim do mundo” [1997], de Carlos Brunno Silva Barbosa)


Mais sobre Carlos Brunno.

 foto: Latitude Zero Prod.

domingo, 26 de março de 2017

Entrevista :: Xharles


por: Rafael A.

Já de volta com as entrevistas aqui em nosso FMZ, desde o começo do ano, é bacana trocar uma ideia com os amigos, certo? Sendo assim, fomos bater um papo com Xharles (o Xarles Xavier aí da foto, com nova grafia e tudo!), compositor gonçalense que durante anos figurou aqui neste espaço. Fosse participando como convidado em nossos eventos, ajudando a produzir (Rock na Garagem e Sarau Feira Moderna, por exemplo, não teriam saído do papel sem sua contribuição) ou no período em que fez parte de nossa Latitude Zero Prod. Dos tempos de banda Incrível Mart, passando pela carreira solo como Xarles Xavier, Projeto Mosquitos (ao lado deste que vos escreve) e por aí vai! Enfim, vamos saber como andam as coisas com esse velho amigo?


FMZ: Pra começar, uma que geralmente aparece mais pro final das entrevistas: o que você tem ouvido? Tem um monte de coisas acontecendo na música, tendências, vertentes que surgem, novos nomes... O que tem chamado sua atenção?

Xharles: É verdade, apesar de muita gente ter aquele pensamento de que não tem nada novo surgindo, de que a música tanto no Brasil quanto no mundo passa por um mau momento, na realidade é que se você procurar, e nem dá tanto trabalho assim, até pelas ferramentas disponíveis hoje com a internet e tal, você acha muita coisa legal que ta rolando por aí. Eu tenho ouvido muita coisa nova, la de fora tem o Royal Blood, Fleet Foxes, Alabama Shakes... Daqui eu destacaria o pessoal do O Terno, Far From Alaska, Céu, Negro Leo, Ava Rocha, Mahmundi, Boogarins, Tulipa Ruiz, Maglore, Daniel Rabujah, Cícero e por ai vai. Tem muito mais gente, se for falar todos faltaria espaço! Tem muita gente boa fazendo som de qualidade por aí. E de tudo quanto é tipo de som. Na minha lista tentei colocar gente de diferentes estilos, justamente pra mostrar a riqueza e a diversidade que existe.


FMZ: E das coisas mais novas, o que acaba virando influência? O que, de alguma forma, você sente que acaba sendo incorporado a seu som, suas composições?

Xharles: Na verdade, a gente nem sempre percebe o que acaba nos influenciando. Eu sinto que o quê de certa forma eu acabo absorvendo, e vendo algum reflexo no meu som, são coisas que assim como eu, tem uma referência de sons mais antigos. Uma galera que meio que bebe numas fontes de coisas que eu também ouvi, coisas de Folk , Pós-Punk, New Wave, Synthpop... Muita coisa dos anos 80 que ta meio que sendo sempre revisitado pelas novas gerações. E outros sons mais alternativos e tal, coisas como Empire of The Sun, The War on Drugs, Teegan and Sara, The XX. Aqui no Brasil tem o Jaloo, Alice Caymmi , Dani Black, Rubel...


FMZ: Duas em uma: Já te vi classificando sua música como Folk Rock. O que mais faz parte da sua música? E você consegue ver uma galera fazendo um som parecido com o seu? Consegue perceber um cenário do qual faz parte?

Xharles: Assim que a banda parou la em 2010 e eu comecei a tocar só com violão nos shows, senti a necessidade, meio que, de me redescobrir como músico e intérprete. Sentia que, agora sozinho, não dava mais pra tocar as músicas da mesma maneira que tocava com a banda. Eu queria encontrar a melhor maneira de interpretar essas canções, nesse formato acústico. Procurei privilegiar as harmonias, mas sem perder a visceralidade. Então, acabei me aproximando de uma sonoridade mais simples, do Folk. Mas ainda com uma pegada Rock. Mas mesmo antes na banda, e depois sozinho, já existiam outras referências no meu som: Música brasileira, Bossa Nova, Pós-Punk, New Wave, Synthpop, Rock Alternativo...

Eu passei boa parte da infância, e início da adolescência, ouvindo rádio e o que predominava era a música Pop e o Rock, e isso fez parte da minha formação. Coisas como Michael Jackson, Prince , Phill Colins, Madona e as bandas do Rock Brasil dos anos 80, entre outros! Só depois, já com uns 14 anos, comecei a pegar CDs e fitas k7 com uns amigos, com o que tava rolando nos anos 90. Nirvana e toda cena de Seattle, as bandas alternativas, as novas bandas nacionais, como Pato Fu, Nação Zumbi... Então essas coisas abriram minha mente de certa firma. Foi aí que descobri que queria fazer musica. Eu sempre procurei colocar outros tipos de elementos no meu som, justamente pra tentar sintetizar esse emaranhado de referências, que ao longo do tempo serviram pra construir minha própria identidade. Eu gosto de sempre estar experimentando, tentando fazer algo que me tire da minha zona de conforto.

Tem uma galera nova no Brasil fazendo um som fortemente influenciado pelo Folk e, em parte me identifico. Mas não sei dizer se fazemos parte de uma mesma cena, até porque eu procuro usar outros elementos no meu som, que fogem um pouco dessa estética. Eu gosto de, de certa forma, me associar a quem também procura experimentar e não fica preso à um único formato. Isso acabou se refletindo nas minhas apresentações. Quando eu acabei dividindo o palco e tocando com artistas de diversos estilos! De Punk, Metal, a MPB, Progressivo, Alternativo, etc... Nesse contexto, eu vejo mais como parte de um cenário formado por artistas e bandas que se diferem na sonoridade, mas que de certa forma se frequentam! Seja por tocarem juntos nos eventos, ou por trocarem sons pela própria web. O que, nos dois casos, pode acabar gerando novas parcerias e coisas do tipo, com um apoiando a acompanhando o trabalho do outro. Nesse sentido, eu me vejo num cenário com gente como A Batida Que O Seu Coração Pulou, o Café República, Jefferson Volve, Homobono, o Gilber T, a Old kitchen... e mais um monte de gente com quem dividi o palco ao longo desse tempo que venho tocando sozinho.

Mesmo não tendo tocado com alguns desses que citei acima, sinto que estamos num mesmo cenário. Seja por estarmos sempre trocando algum tipo de informação, nos apoiando, frequentando os shows uns dos outros e, em outros casos, até trabalhando juntos, como o Gilber T, por exemplo, que está dando uma moral e ajudando na produção do meu primeiro single.

FMZ: Mudando de assunto: você está em estúdio. Tem gravado materiais com galeras diferentes... Em que pé estão essas novidades? Como pretende lançar esses materiais novos? Serão singles, um EP, vão rolar vídeos, enfim?

Xharles: Eu comecei a gravar no fim do ano passado, como você mesmo disse, com uma galera diferente. A princípio, eu planejei lançar quatro singles, um em cada estação do ano, mas não deve dar pra rolar assim. O mais provável é que rolem dois ou três apenas. De, ao menos, um vai rolar vídeo sim. Espero que até o fim do primeiro semestre, ou início do segundo já esteja pintando por aí, e ai sim pro fim do ano pretendo começar a pensar num EP.


FMZ: Ainda sobre lançamentos, essas coisas. Mesmo com todas as facilidades da tecnologia, ainda me parece dificílimo lançar um artista, ou uma música, com um material de qualidade, profissional mesmo. Gravação, filmagens... Claro, é bem menos complicado que em décadas anteriores, mas, está tudo tao acessível assim? Só não aparece quem não quer?

Xharles: Hoje, com certeza, é mais fácil produzir. Tanto áudio, quanto vídeo, com uma qualidade bacana, do que era ha dez, quinze anos atrás. Tem gente que consegue um resultado incrível gravando em casa mesmo. Não sei dizer se fica profissional pros padrões comercias e tal. Mas, com certeza, muitas vezes fica bem próximo e com um custo bem menor. Agora, se a pessoa não tiver condição de fazer dessa forma e for fazer da maneira tradicional, procurando um estúdio bacana pra conseguir uma gravação de áudio e vídeo, ainda assim da pra conseguir um preço legal, bem mais acessível do que era em outros tempos.

Principalmente, se a pessoa se cerca de amigos desse meio que trabalham com produção e músicos que tão dispostos a contribuir, as coisas ficam mais fáceis. Se não tem grana, camaradagem nesse meio é a alma do negócio. Agora, não sei dizer se isso significa que só não acontece quem não quer.. Isso de 'acontecer' envolve outros fatores que não apenas conseguir um áudio e vídeo bacana. Hoje em dia isso ja é quase um pré requisito pra se colocar em cena. Mas se vai acontecer, é outra história que eu não sei o que determina. Tem a ver com contratos, modismos, jabás, sorte e, principalmente, trabalho e investimento.


FMZ: Sem sair muito do tema...Produzimos coisas juntos, tocamos juntos em alguns lugares, passamos por uma penca de espaços e eventos. Sabe o que penso hoje, a respeito do bom e velho “falta espaço”, “falta isso” ou “falta aquilo” que se ouve muito no underground. Mas, nesse ponto de sua carreira, como percebe essa coisa de canais de divulgação, espaços (ao menos aqui pela Região), eventos e por aí vai?

Xharles: Pois é, a gente já passou por muito perrengue. Com e sem banda! Eu percebo que hoje em dia, cada vez mais, as coisas são virtuais. Tá tudo nas redes sociais, 'lives', YouTube, plataformas de compartilhamento de música, financiamento coletivo e etc.... Por um lado isso é incrível, te abre muitas portas e possibilita coisas que sequer imaginávamos um tempo atrás! Mas não da pra ficar só nessa parte virtual, tem que sair a campo, ir nos shows dos amigos e de quem não conhece, fazer conexões, tocar o máximo possível em qualquer lugar. O corpo a corpo, o olho no olho são insubstituíveis.

FMZ: Tudo isso mudou muito com o tempo. Consegue apontar o que de mais relevante mudou, dos tempos de Incrível Mart pra cá pra um artista independente?

Xharles: Muita coisa mudou , fora essa coisa da internet, que citei, tem todo contexto que mudou bastante, ao menos na minha visão. Quando a banda começou, no fim dos 90 , existia uma cena independente onde diferentes tipos de banda tocavam juntas, no mesmo evento, ao menos aqui na região era assim. Lembro de tocarmos na mesma noite com bandas de HC, Metal, Alternativo e por ai vai!

E rolavam bastante shows nesse período, em diversos locais. As vezes, na mesma noite, e todos tinham uma galera. Um não atrapalhava o outro, mas o Rock não tava muito presente na mídia. Algumas bandas surgidas no inicio dos anos 90 dividiam o espaço com as remanescentes dos 80. A cena independente estava, meio que, isolada. Haviam alguns zines e programas alternativos, em algumas rádios. Geralmente nos horários mais tardes. Depois, em meados de dois mil, as coisas ficaram mais segmentadas. Algumas bandas se fecharam mais e só tocavam, na maioria das vezes, com outras do mesmo estilo. Fosse Punk, HC, New Metal e etc..

Até esse momento ainda tinha bastante gente frequentando os shows independentes. O Rock passava por um momento bom na mídia. Novas bandas surgiam a todo momento, rolavam rádios, revistas como a Bizz, Rock Brigade, Rock Press, ,jornais como o Jornal do Rock e Internacional Magazine... MTV tava rolando, nomes como Pitty despontaram junto com uma galera nova da cena do HC Melódico, Emo, Metalcore... parecia que se desenhava um futuro promissor onde o Rock seria novamente como nos anos 80, o estilo musical que predominaria nacionalmente, o que acabou não se consolidando. Uma banda ou outra chegou ao mainstream. Mas mesmo essas, hoje em dia, não tem mais muita evidência. As rádios, a maioria, acabaram. Aqui no Rio principalmente. Jornais, revistas e zines também. Ficou só virtualmente e olhe lá. A MTV, praticamente, parou de tocar música e o Rock meio que, novamente, saiu da mídia de massa, e hoje as bandas consolidadas são as mesmas remanescentes dos anos 80, algumas dos 90 e as que sobraram desse último momento que o Rock esteve com força no mainstream. Nomes como Pitty, Fresno, CPM 22 , NxZero e tal...

A cena independente, é claro, resiste. Com muita gente nova e muita gente boa. Mas, mais uma vez, parece que existe um abismo entre essas bandas novas e aquelas já consolidadas. Fica difícil romper essa barreira e conseguir criar um público, fazer um nome, se profissionalizar e viver de música. A maioria delas acaba tendo que tocar e manter outras fontes de renda paralelas..


FMZ: E hoje, aqui pela área, como lhe parecem as coisas?

Xharles: Por aqui, na minha opinião, as coisas não mudaram muito nos últimos anos. Vi alguns espaços fecharem as portas, outros novos surgirem e alguns que se mantem ativos por um longo tempo, mesmo com tantas dificuldades. Afinal, musica, ainda mais independente, nunca deu muito retorno financeiro. E assim como os músicos, os produtores e donos de estabelecimentos que optam por esse caminho, o da música autoral, faz isso mais porque gosta do que propriamente por dinheiro. E acaba, meio que, representando uma especie de resistência cultural.

Em vejo muita gente daqui da região tentando movimentar as coisas, se mobilizar. Em alguns momentos sinto que a quantidade de eventos diminuiu, em contrapartida vejo bandas na ativa, já de longa data que continuam tocando e uma galera nova muito boa chegando também. Gente como o Guilherme Gak, Ian Veras, o Cromarik, Pessoas Como Nós, Abacaxi Lunar, e mais um monte de gente nova que tem feito shows por aí. Alguns já com material bem gravado, levando uma galera nos seus shows e tudo mais. Infelizmente, como disse, os espaços pra música autoral e independente por aqui são poucos. E nem sempre se tem uma estrutura bacana, mas sempre foi assim e acho que enquanto esse tipo de som não for algo que dê muito lucro, dificilmente vai se ter um investimento por parte dos donos dos espaços, que mude esse contexto. Então acaba tendo a necessidade, muitas vezes, dos próprios artistas se mobilizarem e fazer com que as coisas aconteçam da melhor maneira possível, pra conseguir mostrar seu trabalho.


FMZ: Sobre a Incrível Mart: vê alguma possibilidade da banda se reunir algum dia? Se vê tocando com banda ainda?

Xharles: Mantenho contato com todos da banda, e agente sempre conversa sobre essa possibilidade de voltar a fazer um som juntos! Todos tem essa vontade. Ultimamente, principalmente, temos falado muito nisso e estamos tentando marcar uma reunião. Esse ano a banda completaria 18 anos, já que começamos em 1999 e, até por isso, pensamos em fazer alguma coisa. Agora, se será algo apenas comemorativo, em razão do aniversário, quem sabe um show com alguns sons antigos, ou se poderia vir a a tornar algo mais contínuo, talvez produzindo material novo, não sabemos. Eu acho a primeira hipótese mais provável. Até porque é mais complicado hoje em dia pra todos da banda conseguir conciliar suas coisas pessoais, trabalho, família, etc... Pra se ter uma periodicidade com a banda, ensaios, shows e tudo mais fica meio complicado.

Eu gosto da ideia de tocar com banda, estar entre amigos , fazer um som. Poder dividir isso com outras pessoas que acreditam no som que vocês fazem juntos, e depois vão olhar pra trás com orgulho daquilo que fizeram. Isso tudo é bem legal. Mas ao mesmo tempo, dá bastante trabalho. E hoje em dia acaba sendo mais complicado administrar essa logística do tempo e disponibilidade de cada um. Ainda mais sendo algo que, a princípio, não teria um retorno financeiro.


FMZ: Durante uma época você deu as caras em tudo quanto foi evento, sarau, dividiu o palco com poetas e bandas de tudo quanto era estilo. Ainda se sente com o mesmo pique?

Xharles: Verdade, entre 2013 e 2016 eu rodei bastante por aí! E depois dei uma parada. Pode parecer desculpa esfarrapada, mas nem é propriamente uma questão de pique, é mais uma questão de escolha mesmo. Eu sempre tive essa vontade de sair tocando por aí! Ir aonde fosse possível. Se dependesse de mim rodava o mundo com minha viola. Queria ter essa experiência de viver quase como um músico de rua, tocar pelas praças e onde mais fosse possível, compartilhar minha música em diferentes locais, com o maior número de pessoas e ambientes diversos. Toquei em moto clubes, teatros, praças, bares, entre músicos de diversas vertentes e poetas. E isso foi uma experiencia incrível, muito rica , que levarei pra toda vida. Foi muito importante.

Eu estava num momento aonde precisava sair da coisa virtual e levar o meu som pra fora de casa e da Internet. E valeu muito a pena a experiência. Mas é algo que também foi cansativo. Passei muito tempo fora de casa. A coisa tava muito frenética e isso também tinha um custo já que na maioria dos casos, além de não receber nada pra tocar, ainda tinha as despesas de consumação e transporte. Então agora, não por falta de pique, mas por opção mesmo, resolvi levar as coisas com mais calma. E também poder focar em outras coisas, como gravar meu som. Ainda não tenho nenhuma gravação oficial do meu trabalho solo, com uma qualidade bacana e tal, e agora to querendo conseguir fazer isso


FMZ: Esse material novo que está gravando, pretende apresentar ele ao vivo?

Xharles: Pretendo sim, algumas eu já toco faz tempo nos shows. O repertório dos shows sempre varia muito, mas eu devo tocar essas que to gravando sim. Provavelmente mudando algumas coisas do arranjo, até pra adaptar pro formato acústico, já que no show ainda é só voz e violão. Mas isso de mudar os arranjos já é algo bem frequente no meu trabalho .


FMZ: Qual o último melhor disco que você ouviu? Favor comentar.

Xharles: O “Black Star”, do David Bowie é um disco denso, forte, com uma sonoridade bem experimental em alguns momentos! Me soa meio Jazz até, e por ter sido gravado quando ele se tratava de um câncer e lançado pouco antes da morte dele, o disco acaba tendo um certo tom de despedida em alguns momentos. , Eu achei um trabalho incrível! E de nacional, eu colocaria o mais recente da Elza Soares: o “A Mulher do Fim do Mundo”, um disco bem experimental, que flerta com diversos estilos, do Samba ao Rock, com arranjos muito bem feitos e letras contundentes, que tratam muitas vezes de temas delicados como a violência doméstica sofrida pelas mulheres . Um excelente disco!

Ah! E nos dois casos fica meio evidente a experimentação musical, com timbres e sonoridade eletrônica contrastando com guitarra e outros instrumentos convencionais! Nada muito novo, mas em ambos os casos feito com extremo bom gosto!


FMZ: Dylan, Billy Corgan, Chico, Tom York... Esses caras ainda tem lugar especial em sua playlist?

Xharles: Com certeza! E sempre terão! Esses e mais alguns outros nomes que você não citou fizeram parte da formação da minha identidade musical. São a minha linha de frente, por assim dizer! Apesar de estar sempre procurando conhecer e escutar coisas novas acho que não fico uma semana sem ouvir algum som de um desses nomes!


FMZ: Tudo que tem acontecido no país ultimamente, de alguma forma, afeta sua produção artística? Acha que a classe artística deve se envolver, se posicionar? Como percebe isso nas redes sociais, por exemplo?

Xharles: Acredito que de alguma forma todos somos afetados. Mas não sei dizer se tem uma interferência direta na minha produção. Sinto esse clima de tensão e descontentamento que, independente da opção partidária, parece meio que geral no país nos últimos tempos. Não sei se de alguma forma isso se reflete na minha música, talvez não. Talvez seja um incômodo que sinto na minha vida pessoal, que de certa forma não expresse nas minhas letras, talvez pela forma como construo minhas canções. Sei la, penso que trate de temas mais introspetivos e pessoais e acabo não falando dessas coisas mais gerais, que acontecem e afetam a mim e todos ao meu redor. Ou, se falo, é por metáforas, de forma pouco direta, tão subjetivas que se eu não explicar, com certeza, passaria desapercebido da maior parte das pessoas.

Nesse contexto eu acho importante a classe artística se envolver e se posicionar, sim. Não só a classe artística, como todo povo em geral. Acho importante que hoje tenhamos essa liberdade e esse direito de poder nos manifestarmos, protestar e lutar pelas causas que lhe são justas, mesmo que ainda existam barreiras e setores que tentem minar e coibir essa liberdade.

Eu não diria que um artista, ou seja la quem for, tenha a obrigação de levantar bandeiras ou se posicionar de forma direta, como uma espécie de liderança, pelo simples fato de ser uma pessoa "pública" ou coisa do gênero. Que exista essa cobrança por ele ser o que chamam de "exemplo ", formador de opinião, ou coisa do tipo; Acho que as pessoas deveriam pensar por conta própria e lutar pelo que acreditam, independente do que eles e a mídia dizem acho que as pessoas deveriam procurar se informar mais. Estudar pra não acabarem sendo manipuladas e servindo de massa de manobra pra esses mesmo bando que há séculos controla o país.

Nas redes sociais eu sinto que, atualmente, ta tudo muito polarizado e todo mundo muito a flor da pele. Passamos por um momento difícil, sombrio, onde ainda surgem vozes pedindo coisas absurdas como a volta da ditadura militar. Principalmente escondidos sob o anonimato que muitas vezes a internet oferece. Vejo muito radicalismo, gente que ataca um artista “x” e diz que era fã, mas jogou seus discos fora por causa de sua posição política, que exclui alguém por discordar de sua opinião. É claro que ninguém é obrigado a conviver, ainda que num ambiente virtual, com alguém que defende valores que você abomina. É compreensível você excluir um nazista de sua rede de amigos. Agora excluir alguém porque votou no candidato adversário do seu, ou porque discordou de você numa postagem numa rede social me soa uma atitude um tanto extremista e desnecessária. Eu acho possível e necessário que exista um diálogo. Enquanto a população se divide entre coxas e mortadelas e se ataca, e não se entende como o responsáveis por isso, os "chefes do restaurante", que fizeram esses quitutes estão juntos, sem nenhuma cerimônia cozinhando e garfando toda a população.


FMZ: É isso. Valeu por mais essa entrevista! Se não me engano é a terceira..rsrsrs Recado final?

Xharles: Verdade! Se não me engano, a primeira foi ainda na época do Incrível Mart, quando tínhamos acabado de lançar o CD "Projeto Secreto e O Grande Circo Místico". A segunda assim que comecei a tocar sozinho. Ou seja, sempre em momentos cruciais da minha caminhada com a música. E agora, mais uma vez num desses momentos, quando estou prestes a lançar meu primeiro single e vídeo oficiais, do meu projeto solo. Queria agradecer por mais uma vez abrir espaço pra eu falar de minha música, e por sempre apoiar e ajudar na divulgação do meu trabalho. E agradecer também a todas as pessoas que de alguma forma acompanham e torcem por mim, e que gostam do meu som! Então é isso! Até uma próxima! A gente se vê por aí.

Confira o novo single de Xharles (lançamento Kbça Discos):

Links, novidades e muito mais sobre Xharles em sua página no Facebook.

foto: Latitude Zero Prod.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Entrevista :: Adriano Dias


por: Rafael A.

Adriano Dias é um velho conhecido, e parceiro aqui do FMZ. Militante nas áreas de Direitos Humanos e da Cultura, já contabiliza anos de luta política. Participou de bandas e, à frente da ONG ComCausa, levantou bandeiras como a da Alienação Parental. A história de Adriano cruzou com a do FMZ há alguns anos, na época do surgimento da campanha Jovem Fica Vivo, criada por ele e para qual este fanzine foi convidado a participar, ao lado de outros músicos e figuras ativas no cenário underground Fluminense. A seguir, você conhece um pouco mais dessa figura importante na luta política na Baixada Fluminense. Vamos ao papo que batemos com ele!

FMZ: Pra começar, fale um pouco de sua história, conta pra gente como a música e a militância política entraram na sua vida.

Adriano: Devo ao Heavy Metal e ao Punk Rock do inicio dos anos 1980 tudo que acho que fiz de legal na vida. Ao Cólera, Olho Seco, Ratos de Porão, Garotos Podres, Inocentes, Metallica, Venom, Motörhead, Maiden e todas outras bandas que não tinha como comprar os discos, ou não tinham no Brasil. A música me abriu os olhos e canalizou a minha revolta de adolescente da Baixada Fluminense que se sentia excluído, e era excluído. A militância política, posso dizer que teve até data, abril de 1985. Imagina um moleque de 15 anos andando no meio da rua, pois o esgoto corria a céu aberto em valas nas laterais da estrada de barro. Passa o ônibus que joga para alto a poeira que encobre o pouco que eu tinha de estima naquele dia. Debaixo do meu braço, o primeiro jornal que eu comprei por iniciativa própria. Usei o dinheiro que era do biscoito do lanche. Uma dura escolha, fui de madrugada no médico e o jejum durou de 4 da manhã até quase 17h. Na capa do ‘O Globo’, a notícia dada pela TV na noite anterior: “Morreu Tancredo”. Começou, tipo assim. Anos depois aconteceu a ideia da criação do fanzine Consciência Nacional, ou CN Zine. Depois fui roadie do Desordeiros, criei uma banda Punk chamada FDK, e uma de Death, a Convultion, no qual fizemos alguns shows entre 1987 e 1991. E fiz um show com o Gangrena no Garage, em 1992. Depois fui produzir alguns eventos e cuidar da vida. Montei uma empresa de informática em 1990 e acabei trabalhando na política pública no Rio, Brasília e Nova Iguaçu entre 1998 e 2009.


FMZ: E o surgimento da ComCausa, como se deu?

Adriano: Considero a galera do Rock como movimento social, não somente aqueles que vieram das associações de moradores, dos sindicatos ou da teologia da libertação da igreja católica daquela época. Sempre participei de tudo. Era radical, era de esquerda, tava lá. Antes de 2013, na ultima grande manifestação no centro do Rio, em 1987, estava eu lá dando coturnada em tropa de choque e correndo do “brucutu” (veículo da policia para enfrentar manifestações). Era meu ponto de vista Punk da vida. Com o tempo, o amadurecimento profissional e político, fui adequando meu entendimento de mundo e militância. Somente com mais de 30 anos, depois de trabalhar no Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu e na Plataforma Interamericana de Derechos Humanos, Democracia y Desarrollo (PIDHDD) fui ter entendimento do que era de fato a amplitude dos direitos humanos. Daí veio a ComCausa, a institucionalização de minha militância e de tantas outras pessoas, um instrumento de luta. Foi fundada em 2003, mas somente em 2007 assumimos a bandeira da cultura de direitos. Foi uma refundação, assim, considero que fazemos 10 anos em 2017.


FMZ: E como é trabalhar com Direitos Humanos? Parece ser uma área de atuação da qual, no fundo, a população de uma forma geral sabe muito pouco. Confere?

Adriano: Me assusta ver “Bolsominions”, principalmente jovens, repetindo como papagaios “Bandido bom é bandido morto”; “Esses defensores de bandido… quero ver quando for assaltado”, entre outros bordões prontos como “intervenção militar!”. Pedem isso, mesmo com todo o conteúdo e discussões disponíveis em internet, com acesso a escolas melhores e sem as restrições da censura. Os direitos humanos são, em nosso país, como algo que atrapalha o combate ao crime? Estranho é que parece existir um movimento para manter essa concepção. Talvez se trate de uma maneira de apequenar e colocar a discussão em questões pontuais, como da violência, em detrimento de uma universalidade de exigências que hoje compõem o cumprimento dos direitos humanos. Exigibilidades que, se respeitadas, mudariam toda a conjuntura da sociedade como a conhecemos hoje. Por exemplo, imaginem se todos os policiais do Rio de Janeiro exigissem seus direitos humanos a um salário digno e condições – equipamentos, treinamento, entre outros – adequados a sua segurança? Imaginem se todos os professores, alunos e pais exigissem uma escola com direitos humanos? Pergunte aos mais velhos como era a Baixada Fluminense, como era nas periferias, na ditadura militar? A soma de violência, mais poder, igual a controle territorial. Não por acaso os operadores das matanças a mando dos poderosos e militares, posteriormente se tornaram vereadores, deputados e prefeitos. Mas neste lugar onde só se via miséria e violência, tinha gente de coragem com alto valor moral e humanístico fazendo a resistência pacífica. Pessoas como o Bispo da Diocese de Nova Iguaçu, Dom Adriano Hipólito, que por conta da defesa dos direitos humanos foi espancado e deixado nu, pintado de vermelho pelas ruas. Mas quantos sumiram ou foram mortos? Não sabemos, vivíamos uma ditadura e os pobres da Baixada, assim como das periferias sociais do Brasil, são os ”morríveis”, sem direito a vida. Na ComCausa sempre fui o responsável pelas questões de violência letal, dos assassinatos, famílias, mães que perderam filhos. Nosso empenho, como pessoa e pela ComCausa, é que direitos humanos seja uma questão de vida, de alegria. É celebrar no show de Rock, é ter emprego e salário, educação e saúde, é poder pensar e se expressar, amar quem quiser como quiser.


FMZ: A questão da Alienação Parental é outra de suas bandeiras. Ao menos eu, tenho muito pouca informação a respeito. Ainda é um tema negligenciado pela sociedade, veículos de comunicação? Que avanços tivemos no tema nos últimos anos?

Adriano: Desde que meu filho tinha pouco mais de um ano passei ter seguidas tentativas de me afastar dele por parte da mãe, de namorados, família e até gente do trabalho dela. Tenho uma vida inteira de militância e fui denunciado por ameaça na Lei Maria da Penha, tendo como testemunhas colegas de trabalho que sequer me conhecem. Foram quase uma centenas de todos tipos de ataques para tentar me afastar do meu filho nos últimos cinco anos. Quando fiquei sabendo o que era alienação parental, pela minha atual companheira, a Fernanda Torres, em 2012. Decidi então canalizar o sofrimento de ter a infância do meu filho roubada em luta. Primeiro conseguimos ajudar a desconstruir a associação da alienação parental como coisa de mulher, o que não é. Culpa da cultura da guarda unilateral (que um dos genitores é o guardião jurídico do filho). Acho que conseguimos superar esta visão machista e focar no principal que é o bem estar da criança. Segundo foi o movimento pela lei da guarda compartilhada que participei junto com milhares de pais e mães pelo Brasil, e que foi aprovada no final de 2014. Ajudei na criação de uma Lei Estadual, a 222/2015, de prevenção da alienação parental e agora estou no movimento pela criminalização, o PL 4488. Meu empenho é ampliar a responsabilização não somente de quem aliena, mas principalmente quem participa e ajuda a na prática da alienação parental. Estes têm que ficar mais tempo na cadeia e pagar para ajudar a reparar os danos provocados à criança.


FMZ: Você foi candidato a prefeito de Nova Iguaçu nas últimas eleições. Conte como foi essa experiência? O saldo foi positivo?

Adriano: Cara. Eu queria ter criado uma banda histórica ser igual ao Jello Biafra (vocalista do Dead Kennedys, Jello Biafra, prefeito de São Francisco, em 1979), mas só consegui ser candidato a prefeito de uma cidade grande igual a ele. Na verdade, com o reconhecimento da REDE Sustentabilidade como partido e sua participação nas eleições municipais houve o convite para que eu fosse candidato a prefeito por gente que respeito muito. Sabia que não teria qualquer estrutura financeira para a disputa então resolvi cumprir a missão de contribuir para que houvesse um debate de cidade, nisso fomos vitoriosos, a ponto que tivemos linhas inteiras de nosso plano de governo e até as frases e proposta copiadas por alguns marketeiros dos outros candidatos com mais grana. Então estávamos certos. Foi uma experiência dura, pois eu estava em um momento muito difícil da vida, mas de um grande crescimento e aprendizado pessoal, conheci muita gente nova. Fiquei mais de dez anos longe da política partidária, e até preconceituoso com a política. Hoje, aconselho a qualquer velho Punk a se candidatar e colocar suas ideias de uma sociedade melhor na política partidária.


FMZ: De volta a ComCausa, e a seu envolvimento com o cenário musical. Como surgiu e quais os planos pro futuro do Rock ComCausa?

Adriano: Hoje procuro atuar como um assessor da ComCausa, que está se dividindo em várias ramificações conforme as pessoas estão entrando, reestruturando a instituição. Que voltei a chamar de movimento. O Rock ComCausa sempre foi uma iniciativa de misturar debate com música, principalmente a vertente cultural que provocou a criação da ComCausa, reafirmando, se não fosse o Rock no início dos anos 80, eu não seria eu, e acho que não haveria a ComCausa. Vamos retomar a articulação com bandas e espaços de show e comunicação. Assim como foi o princípio do Jovem Fica Vivo, é uma provocação para a reflexão, a galera velha e nova tem que pensar em propagar uma cultura de paz, e onde melhor do que em um show de Rock!


FMZ: Levando em conta o momento político pelo qual o Brasil passa. Como você tem percebido o meio underground diante disso tudo? Me parece que há um certo receio desses artistas em se posicionar, o que seria a coisa mais natural do mundo. O que acha?

Adriano: Dor de corno de geral. O que é esquerda? O que é direita? O país teve avanços importantes em áreas sociais, educação, redução da pobreza e até aumento de consumo. O problema é que a galera que fazia isso continuou com os mesmo esquemas de corrupção da ditadura militar. Quer fazer obra? Só pagando propina! Neste ponto toda a parte positiva dos governos mais progressista que tivemos foi para o ralo em uma pernada de anão. De fato, o maniqueísmo político acabou. Não tem os do bem e os do mal. Por isso é que as pessoas tem medo de se posicionar. Melhor para a malandragem que está na política, quanto mais gente fora da política partidária, fazendo palhaçada em rede social, pagando de politizados, melhor para o Cunha e seus aprendizes de feiticeiros. Acho que temos que voltar às trincheiras culturais, começar de novo, ocupar terreno e resistir. Seja da forma que for, mas influenciar por dentro, reconstruir.


FMZ: E qual o balanço que você faz de todos esses anos de luta política? Tudo que já fez, os resultados, conquistas, enfim. Saldo positivo?

Adriano: Uma coisa que me orgulho é que até eu, um cara da Baixada Fluminense, já ajudou a construir políticas públicas nacionais na antiga Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, mas no dia seguinte estava pisando na lama, ou em uma delegacia garantindo o atendimento pelo polícia, no sarau promovido pelos movimentos culturais ou nos shows de Rock das periferias. Acho que tem de ser assim, “faça você mesmo, faça pra entender” como escreveu o Redson. Acho que conseguimos construir paradigmas, ajudar em conceitos novos, não falando, mas fazendo. Pode ser em um debate para três jovens sobre homofobia em uma igreja evangélica na Baixada, ou no Congresso Nacional propondo emenda para um deputado autor de uma lei. Se eu faço, todo mundo pode se empenhar para fazer. Dá seu jeito. Se vai dar certo ou não é outra história, mas faça!


FMZ: Partindo do princípio que, em tese, seria muito mais fácil ter uma vida “normal” (vai saber o que quer dizer isso..rsrsrs). O que faz com que alguém dedique sua vida a causas humanitárias?

Adriano: Acho que a vida só vale a pena se fizermos algo para o próximo, não espere reconhecimento, espere criticas. Mas acho que vale a pena.


FMZ: É isso. Muito obrigado pelo papo, Adriano! Considerações finais?

Adriano: No mais, “Punk Rock é vida, é autonomia”, estou com 47 anos e espero ainda entrar na roda por mais uns 30 anos.



foto: divulgação

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Entrevista :: Monaural


por : Carlos A.

O Monaural (foto) surgiu em SP e durou nove anos consecutivos. Após esse tempo, a banda encerrou as atividades e o vocalista Ayuso mudou de ares e foi morar em Florianópolis-SC, devido a uma profunda depressão que culminou o mesmo com o encerramento da banda. Lá ele continuou criando projetos, tocou bateria em algumas bandas, com músicos locais e resolveu retomar sua banda de origem, tendo em sua formação : Leandro Ayuso (Voz/ Guitarra), Victor Berreta (Bateria), Claudio Vieira (Baixo) e Erick William (Guitarra/voz), junto com um punhado de sons novos. Agora o Monaural continua como um quarteto e voltando a fazer barulho. Confira entrevista cedida pelo vocalista/guitarrista Leandro Ayuso.


FMZ_ONLINE: Já deu pra sentir como é a cena independente de SC?

Leandro: Sim, deu. Desde que cheguei aqui não parei de ir em shows undergrounds pela cidade para conhecer melhor seus artistas locais, suas respectivas casas de shows, etc... e, me deparei com excelentes bandas, pessoal engajado em fazer arte e festivais...mas a cena é sempre aquela coisa : umbigos de ouro, sabe? Aquela coisa de levar o rei na barriga. Ainda existe isso, o tal ego dos artistas, muitos ainda com o ego aflorado demais, outros que tentam desvalorizar e criticar as casas de shows que possuem, mas não saem de lá..., coisas assim, que cresci vendo e vivenciei na cena em São Paulo e já estou acostumado, porém de saco cheio, rs...


FMZ_ONLINE: Sentiu algo de diferente em relação a SP?

Leandro: Sim e não. Não tem como comparar uma metrópole como São Paulo a uma cidade mais provinciana como Florianópolis, mas as coisas aqui acontecem de verdade, tem seus lugares, embora numa proporção muito menor. Afinal, a urbanização, a especulação imobiliária aqui está em alta, problemas como desemprego, violência, miséria, poluição já estão vindo com tudo. É preciso cuidar para Floripa não virar um Rio de Janeiro, se é que já não virou...


FMZ_ONLINE: Como se deu essa retomada após esse hiato de tempo?

Leandro: A banda tocou sem parar desde 2003 até 2009, quando fizemos nossa primeira pausa.

Em 2013, retornamos com um baixista novo e estávamos num processo similar ao de agora, mas por falta de tempo e de interesse dos integrantes que me acompanhavam, acabamos fazendo algumas apresentações sem tempero e o álbum que estávamos preparando acabou engavetado. Após dois anos aqui na ilha, não me contive e reabri a gaveta, lá tinha o produto inacabado do que foi feito em 2013, joguei “tudo” no lixo e agora estamos recomeçando do “zero”, o resgate ao expurgo, foi o primeiro passo para entrosar essa nova formação e na sequência começarmos a trabalhar num novo registro de estúdio.

FMZ_ONLINE: E os novos integrantes, você já os conhecia? Como foi o contato?

Leandro: Os conheci todos pela internet, num chat de relacionamentos....rsrs, coloquei o anúncio e foram aparecendo os interessados, o Claudião, baixista, já tínhamos tocado juntos num projeto embrionário de Stoner em sua casa, mas não perdurou muito, o Erick W., tocava numa banda chamada In.vitro, que conheci pela net também, e o último a aparecer, foi o Victor Berreta que toca na EndofPipe, ele apareceu para cobrir a filha da putagem de um baterista que havia entrado nessa primeira formação e meio que crocodilou contra a banda, com dois shows marcados pulando fora... e agora estamos num quarteto conciso, quatro amigos que conversam, tocam e se divertem durante os ensaios, está sendo muito prazeroso.

FMZ_ONLINE: Com essa nova formação, vocês já tocaram onde? E as novas composições? Continua no mesmo padrão ou acha que mudou algo na estrutura delas?

Leandro: Bem, tocamos num evento no qual eu mesmo produzi e organizei, o Red River Festival, e tipo, foi do caralho, com poucos recursos e muita vontade de quebrar tudo!

As novas composições, bem, elas ainda estão surgindo nos ensaios, fizemos uma versão “a lá D-7” do Wipers para “Sangrar” e “Me drogar até morrer” retornou ao repertório junto de “Cadeia Particular”. O padrão mudou, mudou os músicos, agora temos uma massa sonora mais concisa e equilibrada, todos músicos que fazem parte do projeto já possuem alguma bagagem e todos já estão próximos dos seus 30 anos de idade, tirando eu que sou o mais velho da parada com 35, ou seja agora o foco é achar as devidas referências para dar continuidade e recomeçar algo completamente novo, sem perder a visceralidade do que foi feito anteriormente.


FMZ_ONLINE: Há planos de um novo material pra quando? E o que mudou do início da banda até aqui, em relação a produção independente? E isso tudo beneficia ou atrapalha em certo momento?

Leandro: Sim, começamos ontem a trabalhar na primeira estrutura do que irá ser nossa primeira faixa feita em grupo. A ideia é fazer um disco mais coletivo, mais aberto a novas ideias.

Com relação a produção independente, é certo que mudou, o acesso a bons equipamentos, as produções hoje estão mais elaboradas e registros melhores, feito por quem possui alguma tecnologia full HD e conhecimento para utilizar o mesmo, já dá uma imagem muito mais precisa e real do que é a banda no palco, ao vivo com bons equipamentos. Tudo isso, beneficia quem sabe usar tudo isso sem se esconder atrás disso.


FMZ_ONLINE: Ainda vale empunhar uma guitarra e levar a cena independente adiante?

Leandro: Vale, sempre valeu, é a mesma coisa que perguntar para um skatista das antiga que ainda sai para dar suas bandas de carrinho...se ainda vale à pena cair de skate nas pistas, claro que vale! O prazer de fazer aquilo que realmente gostamos e acreditamos está acima de muita coisa..., acho que se eu parar de tocar nos próximos dez anos, talvez não haverá os próximos dez anos para mim, pois acho que me enforco de tédio antes.

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foto: divulgação

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Entrevista :: Coletivo Farinha Podre HC



Mostrando que nem todo mundo é mau, egoísta ou acomodado, um pessoal antenado na luta por um mundo melhor resolve começar um coletivo. Essa história acontece cada vez mais aqui e ali. Serão os ventos das mudanças ou esse pessoal sempre esteve por aí? Talvez as duas opções sejam verdadeiras. Fiz contato com a amiga Priscila Pereira, que vem atuando em um destes maravilhosos coletivos, para que conheçamos um pouco mais desta galera que faz acontecer.


FMZ: Como surgiu e qual o objetivo do Coletivo Farinha Podre?

Priscila Pereira: O Farinha Podre surgiu ano passado, comigo e o Paulo Pontes, em Uberaba. Queríamos fazer algo pela cidade, movimentar mais, inserir novos conceitos, novas ideias, colocar Uberaba na rota da movimentação cultural underground/independente e também poder fazer mais pela cena que tanto apoiamos e vivemos. Estávamos sentindo falta de movimento, de fazer acontecer. Sabe como é, né?


FMZ: O nome escolhido parece ter algo a ver com a história do lugar.

Priscila Pereira: Sim sim, o nome é justamente para remeter ao lugar. Pensamos em vários nomes no começo, alguns bem legais, mas que não tinham haver com o lugar, então eu sugeri de pensarmos em algo mais específico e falei vários nomes só pra dar inspiração pra um nome legal e um deles foi Farinha Podre. Acabou que o Paulo achou legal e concordamos que seria nossa melhor opção. Então, na zuera, a coisa ficou séria! Antigamente a renda da região era feita com a venda de farinha e a população deixava sacos de farinhas em árvores ou enterrados (há várias versões disso, nunca saberemos qual é a verdadeira. kkk), mas, enfim, o intuito era secá-las e evitar roubos, só que acabavam deixando tempo demais e ela apodrecia. Daí o nome Sertão da Farinha Podre…


FMZ: Qual o perfil dos participantes?

Priscila Pereira: Quanto ao perfil dos participantes… Creio que somos meio loucos, rs, idealizadores… Enfim, gostamos de Hardcore, cultura independente e temos sede em movimentar as coisas! Digo loucos, porque sabemos que a cultura underground é sempre na base da insistência, resistência e paixão pela coisa mesmo, mas amamos o que fazemos e somos persistentes!


FMZ: Como andam as produções do Coletivo?

Priscila Pereira: O Coletivo começou, de verdade, esse ano. Realizamos uma festa de lançamento oficial no final de abril, com uma proposta diversificada na cidade: Foram 5 bandas (como o Bayside Kings, de Santos, e o Austin, de Franca), tivemos banquinhas de cd’s, camisetas, distribuímos revistas, zines (como o Reboco Caído!!) e outras publicações independentes, convidamos um fotografo para expor as fotos dele e fizemos lanches vegans e vegetarianos pra lanchonete e também umas bebidas não alcoólicas. O resultado foi bem legal, quem foi gostou e tivemos elogios tanto da bebida, quanto da comida e do evento em si! Mas por agora estamos focados em criar mais publico na internet, cuidar do blog, produzir merchs nossos, e fazer mais trabalhos divulgacionais de bandas, livros, revistas, etc…


FMZ: A maior importância das pessoas se reunirem para lutar por alguma coisa.

Priscila Pereira: Cara, é aquela história: A união faz a força e a associação com pessoas na mesma “vibe” é tudo! Sozinhos não somos nada, não podemos fazer muitas coisas e ficamos muito limitados. Essa é a verdade! Então lutar por algo que você acredita com pessoas amigas ao lado é mais gratificante, mais potente e cai naquela outra história: Você pode destruir um, mas vai ter outro no lugar…


FMZ: Estamos em um período de grandes eventos no país, eleições e muita repressão em cima do povo que está sendo perseguido, perdendo casa e não vê nenhuma possibilidade de melhora e conquista dos direitos básicos.

Priscila Pereira: É, esse tema é delicado… Essa questão de direitos humanos nunca foi seguida e dificilmente será. Nossa sociedade se degrada mais e mais. As pessoas consomem cada vez mais, sustentando um sistema falido e explorador, investem seu dinheiro em satisfação dos sentidos e prazeres sensuais, alienam a mente, não se tornam nem um pouco conscientes da realidade que vivem e isso acaba somando para o colapso que estamos vivendo. O poder de mudança está nas minhas mãos, está nas mãos de vocês leitores, escritores, artistas e todos que fazem algo que vai contra a cultura tradicional vomitada pela tv e pela mídia mainstream. Mas a mudança vem de nós, quando deixamos de dar ibope para a tv e suas notícias tendenciosas, quando boicotamos esse sistema opressor e passamos a ver o mundo com olhos críticos e, principalmente, com misericórdia à população que vive essa situação. Acho que um exemplo perfeito é o trabalho do pessoal do Hardcore Foundation. Eles fazem um trabalho incrível com a população carente do outro lado do mundo, como a África, por exemplo. O merch que eles arrecadam é revertido em alimento e remédios para a população. Eles mesmos vão até lá e distribuem o que arrecadam. Quem sabe o Farinha Podre um dia consiga alcançar esse patamar? Enquanto isso, mais amor e mais consciência, por favor!, fica sendo o nosso lema!

por: Fabio da Silva Barbosa



Contatos com o Coletivo Farinha Podre HC: e-mail :: blog :: facebook

foto: Fabio Fernandes / 77 Fotos e Filmes

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